sexta-feira, 30 de junho de 2017

CineOP – Parte III


No Intenso Agora (Idem, Brasil, 2017)
Dir: João Moreira Salles


De longe, No Intenso Agora, filme mais novo do cineasta João Moreira Salles, que encerrou esta 12ª Mostra de Cinema de Ouro Preto, trata-se de obra das mais politizadas a investigar o caráter e os meandros dos movimentos revolucionários em fins da década de 1960 em lugares distintos do mundo. Mas no fundo é também uma grande investigação sobre a natureza e estatuto da própria imagem documental. Com este filme, trabalha somente em cima de imagens de arquivo do período, ressignificando-as e buscando encontrar nelas modos de falar do hoje como sempre se dá nesses casos. O filme possui, portanto, uma dupla função: é ao mesmo tempo resgate histórico e também estudo metalingüístico.

Moreira Salles já havia feito algo parecido e talvez até mais potente em termos de reflexão sobre o documentário na sua obra-prima Santiago, lançada há dez anos. As memórias pessoais e ponderações íntimas também estão contidas em seu novo filme, tais como abundavam naquele, mas agora ele amplia seu escopo de alcance por tratar de questões que permeiam uma memória coletiva através de fatos marcante da história recente da humanidade, via condução memoralística.

Nessa investigação historico-pessoal sobre imagens feitas na segunda metade dos anos 1960 quando o mundo estava convulsionado por manifestações revolucionárias, o cineasta parte de imagens que sua própria mãe registrou em viagem à China quando Mao Tsé-Tung já havia implantado o regime comunista no país asiático. Dali passa para cenas das greves gerais do maio de 68 na França, pelas manifestações da Primavera de Praga, na então Tchecoslováquia, e também no Brasil quando se enfrentavam os desmandos e arbitrariedades da Ditadura Militar.

Através de depoimento em off, o cineasta cria, ele mesmo, uma série de reflexões e ideias sobre essas imagens e sobre o ideal revolucionário, num verdadeiro trabalho de arqueologia da imagens, misturado com percepções muito pessoais do que aqueles acontecimentos significam para ele e de como eles o entendem em seus respectivos contextos.

Longe de um tom professoral, como pode soar de início, o diretor é sempre mais sagaz quando investe na análise mais subjetiva das coisas. Em dois momentos isso fica mais flagrante e rico: a observação feita sobre o movimento do rapaz que joga uma pedra contra os policiais; e aquele em que arrisca comentários sociais sobre a maneira como se filma um bebê e sua babá. 

É bem plausível ler nas entrelinhas que um filme sobre as revoluções populares ocorridas há cerca de 50 anos atrás é também um modo de comentar, indiretamente, o Brasil de hoje, a onda de manifestações e agitações que tomaram conta do Brasil com mais intensidade desde 2013 até então. Esse tipo de camada e complexidade que o filme ganha com tal interpretação, que não está diretamente posta no filme, só torna No Intenso Agora um rico objeto de análise, tanto por aquilo que nos faz ver dessas imagens tão antigas, quanto das possibilidades de leitura que se abrem sobre elas, mas também sobre como elas são manipuladas e pensadas.

segunda-feira, 26 de junho de 2017

CineOP – Parte II



Rosemberg – Cinema, Colagem e Afetos (Idem, Brasil, 2017)
Dir: Cavi Borges e Christian Caselli


Há algo de desafiador na tarefa de realizar um documentário sobre um dos grandes nomes do cinema de invenção brasileiro contando com depoimentos do próprio documentado. Isso porque o cinema de Luiz Rosemberg Filho segue a mesma proposição de seus colegas de geração que desafiaram normas e códigos cinematográficos para fazer algo único, transgressor, estando ele à margem mesmo daqueles que faziam cinema como ele, mas tinham outra posição no campo do cinema brasileiro, como é o caso de Rogério Sganzerla.

Não parece haver lugar, portanto, para um documentário tradicional de entrevistas e registros puramente ilustrativos sobre algo que pulsa em outra modulação, e que pertence a um fluxo de pensamento muito pessoal do cineasta. Com isso, a dupla de diretores Cavi Borges e Christian Caselli encontra na noção de “cinema de colagem” – defendida pelo próprio cineasta em depoimento no início do filme – um conceito aplicável e faz de Rosemberg – Cinema, Colagem e Afetos também um processo de composição de imagens que se alinham para dar forma e sustentação ao pensamento de cinema e de vida apresentada pelo cineasta.

Os diretores contam com o depoimento em off de Rosemberg, falando sobre sua obra e trajetória, mas preenche a tela com um jogo de imagens que entrecorta e edita cenas icônicas de seus filmes com diversas outras imagens e intervenções. É uma maneira inteligente de dialogar com a proposta de cinema tão peculiar do diretor, sem ter a pretensão de fazer um mero filme de depoimentos. É certo que de início algumas dessas sobreposições soam um tanto infantis, como as animações misturadas às cenas, mas logo o filme afia o prumo e passa a dar mais atenção ao processo de costura dessas imagens.

As poucas imagens que o filme capta de Rosemberg o mostram em casa, muito tranquilamente – ou quando dirige suas atrizes no filme e peça Dois Casamentos. O que mais importa aqui são o pensamento e as reflexões do diretor que vai enumerando questões e as experiências com cada um dos seus filmes – e talvez ao seguir essa cronologia o filme esteja operando em um modo mais clássico e um tanto conservador de se fazer um documentário sobre um cineasta. 

Para ele, o cinema é uma “carta de amor ao outro”, como define mais ao fim da projeção. O fluxo de imagens que Rosemberg promove em seus filmes ganha vivacidade e irreverência muito bem traduzidas pelos dois diretores e coloca em questão o lugar tão pouco destacado de Rosemberg e da importância de seus filmes – e de (re)descobri-los – no panorama atual de revisão do cinema de invenção.

sexta-feira, 23 de junho de 2017

CineOP - Parte I


Desarquivando Alice Gonzaga (Idem, Brasil, 2016)
Dir: Betse de Paula


Desarquivando Alice Gonzaga, de Betse de Paula, parece o filme ideal para abrir a programação da CineOP, já que a protagonista que dá nome ao filme diz ter “mania de arquivo”. Ela é filha de Adhemar Gonzaga, diretor e empreendedor que fundou o primeiro estúdio e produtora de cinema do Brasil, a icônica Cinédia, em 1930.

Foi ali que surgiram os primeiros grandes sucessos do cinema brasileiro, como O Ébrio (1946), de Gilda de Abreu, protagonizado pelo cantor Vicente Celestino. Foi a Cinédia também que acolheu diretores fundamentais como Humberto Mauro, que ali faria Ganga Bruta (1933); e ainda houve a passagem de Mário Peixoto e seu mítico Limite (1931) – escolhido como o melhor filme brasileiro de todos os tempos segundo votação recente da Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine).

Alice, desde criança, sempre foi encantada pelo mundo do cinema e se envolveu com o trabalho do pai na Cinédia. Ali se dedicou, em grande medida, a cuidar dos arquivos e de toda a memória do estúdio.

Desarquivando Alice Gonzaga acompanha a personagem enquanto ela apresenta o cuidadoso e rico arquivo com filmes, recortes de jornais e revistas, documentos, catalogações, enfim, todo tipo de material que faz parte da memória do estúdio e, consequentemente, do cinema brasileiro.

Existe certo amadorismo na construção narrativa do filme, na maneira mesmo como a diretora filma esse encontro. É uma sorte que a personagem seja tão espirituosa e falastrona, cheia de histórias e curiosidades para contar, também dona de opiniões seguras. O próprio ritmo do filme parece acompanhar a profusão de informação e ideias que Alice tem a oferecer, ainda que soe desarticulado muitas vezes. 

Mas o filme é um curioso retrato sobre a dificuldade da preservação da memória do cinema brasileiro, ainda mais se pensarmos que o trabalho de Alice é movido por uma paixão muito particular e de traços familiares. Está longe das instituições e do papel do próprio Estado em fazer esse trabalho, tão necessário a outros focos de produção na história do cinema nacional.

domingo, 26 de março de 2017

Figuras dilaceradas

Fragmentado (Split, EUA, 2017) 
Dir: M. Night Shyamalan


Não é de se surpreender que, mais uma vez, Shyamalan faça render o suspense a partir de uma premissa tão objetiva, explorando ao máximo poucos espaços e personagens. É quase um contrassenso dizer isso porque seu protagonista expande-se psicologicamente entre 23 personas distintas, algo que o torna tão perigoso quanto fascinante.

Fragmentado acompanha os planos inicialmente incertos desse homem desdobrado em tantos ao sequestrar três adolescentes. Há muitas pessoas vivendo no corpo de Kevin (James McAvoy), como diz a Dr. Fletcher (Betty Buckley), psiquiatra que cuida do caso do rapaz. Ele, aliás, tem consciência de seu próprio transtorno de personalidades. Em muitas conversas, ele fala em “nós”, como se estivesse incluído num grupo maior de pessoas em que cada um reconhece as particularidades do outro; e eles estão começando a entrar em conflito.

A maturidade de Shyamalan como encenador está ali, intacta, neste belo exercício de tensão que é Fragmentado. Há um domínio exato da atmosfera de suspense, tanto a partir das tentativas de fuga das garotas, quanto na onda crescente de perigo que aponta para o possível surgimento de uma 24ª personalidade em Kevin, mais bestial e violenta, e que justificaria o sequestro das jovens.

O roteiro do filme confere especial atenção para uma das meninas, Casey (Anya Taylor-Joy). Ela é o patinho feio da turma, retraída e de poucos amigos; é sequestrada por acaso por estar junto com as outras duas garotas no momento. O filme intercala flashbacks dela quando menina, indo acampar com o pai e o tio. Os desdobramentos de situações vividas na infância vão revelar muito sobre os traços de comportamento na adolescência. É um momento também que Shyamalan discute a natureza animal do ser humano, como atitude diante do mundo e também no seu instinto de sobrevivência. E tudo isso vai convergir, espertamente, para o desfecho do filme, revelando um cuidado preciso na construção do roteiro.

E por se tratar de um filme de Shyamalan, não poderia deixar de haver ali um sentido maior que ronda a história (Sinais, por exemplo, é um filme sobre a necessidade da crença; O Sexto Sentido, sobre um garoto que precisa de atenção; A Vila versa sobre os dilemas da sociedade frente ao estado de violência). Curioso que, em geral na obras do cineasta, esse sentido vem escondido e ascende no final. Porém, em Fragmentado, Shyamalan prefere ser mais explícito: está na tese da psiquiatra, didaticamente defendida pela própria personagem no primeiro terço do filme, a ideia de que as pessoas com esse tipo de transtorno dissociativo de personalidade conseguem acessar habilidades sobre-humanas escondidas na mente, uma vez que cada uma das personalidades é capaz de modificar os componentes psicológicos e mesmo fisiológicos do corpo.

Essa opção em “frontalizar” as disputas travadas no cerne do filme já estava presente no longa anterior, A Visita, em que o cineasta preferia mostrar do que esconder – escrevi melhor sobre isso aqui). Decerto que havia uma reviravolta no final, mas agora o cineasta parece menos refém dos plot twists e mais focado em envolver suas histórias e personagens em questões maiores.


Agora em oposição a A Visita, por quase toda a projeção de Fragmentado, Shyamalan vai deixando claro que nada ali estaria no reino do fabular. Porém, nos momentos finais oferece interessantes indícios sobre as possibilidades sobrenaturais que pode haver na capacidade mental, agora sim fazendo links possíveis com o terreno do fantástico.

A partir daqui a crítica contém SPOILERS. Continue a leitura por sua conta e risco.

Esses momentos finais do longa são fundamentais para se pensar a maneira como as coisas estão interligadas. O gancho que ele estabelece na exata cena final com o universo de Corpo Fechado é mais do que uma grande curiosidade a aplacar a ânsia dos fãs por uma continuação. Ela ajuda a completar os sentidos que estão implícitos em Fragmentado.

O mais fundamental é a relação a se estabelecer entre as personalidades de Kevin, capitaneadas pela Fera, com Casey. Já estava lá em Corpo Fechado a ideia de formação da figura do herói e, em menor medida, do vilão. E além isso, de como eles podem ser similares, mas também polos opostos que justificam um a existência do outro. São as metades que se complementam. É justamente quando a Fera reconhece a “alma despedaçada” de Casey, ele se recusa a matá-la. Entendemos, então, toda a construção do passado da menina e suas tragédias subentendidas como modo de fortalecer a personagem enquanto pária, tão problemática e incomum como o próprio Kevin, e que a Fera identifica como um igual, apesar de intenções distintas.

Ele e suas múltiplas peles passam a ser chamados agora de O Horda, o que remete a um outro “sujeito esquisito” visto no filme anterior, o Sr. Vidro. São ambos vilões que surgem por força das circunstâncias biológicas e psicológicas com que vieram ao mundo e os tornaram seres atípicos. Está dada a largada para a ampliação do universo mitológico em torno de tais figuras arquetípicas e também dilaceradas.

domingo, 26 de fevereiro de 2017

Palpites Oscar 2017


Como tradição, seguimos aqui com as apostas das principais categorias para a edição do Oscar deste ano, jogo na maior parte das vezes previsível, mas ainda assim divertido. Ficamos à espera de possíveis surpresas na noite. Em negrito, em cada categoria, aqueles que eu acho que vão vencer, abaixo minha ordem de preferência entre todos. No final, listo todos os filmes com ao menos uma indicação que eu vi, em ordem de preferência.


Melhor Filme

A Chegada
Até o Último Homem
Estrelas Além do Tempo
Lion
Moonlight: Sob a Luz do Luar
Um Limite Entre Nós
A Qualquer Custo
La La Land: Cantando Estações
Manchester à Beira-Mar

De modo geral, uma seleção fraca, com dois ótimos filmes, desses marcantes (Manchester e Moonlight), com outros bons representantes (La La LandA Qualquer Custo). Os demais, para mim, são bem dispensáveis. O musical nostálgico comandado por Chazelle é o incensado da vez, Hollywood elogiando a si mesmo. No entanto, não há de se descartar uma virada de jogo de Moonlight, o que me deixaria bem feliz. Na verdade, feliz mesmo eu ficaria se reconhecessem a maturidade e as sutilezas de Manchester à Beira-Mar.

Ordem de preferência: Manchester à Beira-Mar, Moonlight: Sob a Luz do Luar, La La Land: Cantando Estações, A Qualquer Custo, A Chegada, Um Limite Entre Nós, Até o Último Homem, Estrelas Além do Tempo, Lion: Uma Jornada para Casa.


Melhor Diretor

Dennis Villeneuve (A Chegada)
Mel Gibson (Até o Último Homem)
Damien Chazelle (La La Land: Cantando Estações)
Kenneth Lonergan (Manchester à Beira-Mar)
Barry Jenkins (Moonlight: Sob a Luz do Luar)

Trocaria fácil a competência cambaleante (e sem fôlego no final) de Villeneuve pela segurança constante de David Mackenzie, de A Qualquer Custo. Mas não é uma má categoria a partir dos indicados a melhor filme. Mesmo à frente de um longa cheio de problemas, o trabalho de Gibson como diretor é surpreendetemente bom. Uma vitória de Chazelle parece inevitável, ele tão novinho e já com olhar clínico. Mas Jenkins pode surpreender aqui e eu adoraria ver isso porque ele não esconde certa estilização como encenador, algo que geralmente descamba para o exibicionismo, mas nunca deixa sua história e seus personagens em segundo plano, apesar do apuro estético.

Ordem de preferência: Barry Jenkins, Kenneth Lonergan, Damien Chazelle, Mel Gibson, Dennis Villeneuve. 


Melhor Ator

Casey Affleck (Manchester à Beira-Mar)
Denzel Washington (Um Limite Entre Nós)
Ryan Gosling (La La Land: Cantando Estações)
Andrew Garfield (Até o Último Homem)
Viggo Mortensen (Capitão Fantástico)

Nas últimas semanas, as apostas passaram a apontar Washington como vencedor, mesmo com Affleck ganhando tantos prêmios anteriormente – e mesmo com uma acusação grave de ter cometido assédio sexual. E por mais que eu goste e admire o trabalho de Denzel, eu gostaria muito de ver reconhecida uma grande atuação calcada na sutileza, introspecção e dor que o personagem de Affleck carrega, em contraponto a certo histrionismo que geralmente é associado a grandes interpretações. Bom ver também o destaque dado ao competente trabalho de Mortensen (também sem exageros dramáticos), apesar do filme fraco. E infelizmente Gosling tem se tornado apenas um rostinho bonito e aqui pega carona no sucesso do seu filme.

Ordem de preferência: Casey Affleck, Denzel Washington, Viggo Mortensen, Andrew Garfield, Ryan Gosling.


Melhor Atriz

Natalie Portman (Jackie)
Emma Stone (La La Land: Cantando Estações)
Meryl Streep (Florence: Quem é Essa Mulher?)
Ruth Negga (Loving)
Isabelle Huppert (Elle)

Não há nada mais potente em termos de atuação feminina do ano passado do que o trabalho corajoso de Isabelle Huppert. Há quem ainda aposte nela – e seria lindo ver isso acontecer, ainda mais depois de Verhoeven ter revelado que, quando Elle estava para ser feito nos EUA, nenhuma atriz sondada pelo estúdio aceitou fazer o papel. Mesmo assim, ainda acho que a disputa está entre Watson e Portman, que lá no início da corrida parecia pronta para receber sua segunda estatueta, que seria mais digna do que a primeira. Mas a atriz de La La Land parece formatada para ser a nova queridinha da América, ainda mais com o sucesso do seu filme. Negga é uma grande surpresa aqui, atuação contida, competente do início ao fim.

Ordem de preferência: Isabelle Huppert, Natalie Portman, Ruth Negga, Meryl Streep, Emma Stone. 


Melhor Ator Coadjuvante

Mahershala Ali (Moonlight: Sob a Luz do Luar)
Jeff Bridges (A Qualquer Custo)
Lucas Hedges (Manchester à Beira-Mar)
Dev Patel (Lion: Uma Jornada para Casa)
Michael Shannon (Animais Noturnos)

Pelo tanto de hype e tantos prêmios acumulados, esperava um pouco mais da atuação de Ali, franco favorito aqui – e talvez uma forma de consolação para Moonlight caso saia sem muitos prêmios. Mas o time de atores do filme de Jenkins funciona muitíssimo bem em conjunto. Assim como estão ótimos os demais concorrentes aqui, sendo Patel a grande surpresa porque sempre o achei um ator limitado. Porém ainda prefiro a ternura máscula de Hedges ou a aspereza de Bridges – ainda que repetindo outros personagens seus. Outro que repete o homem à beira do abismo existencial é Shannon.

Ordem de preferência: Lucas Hedges, Jeff Bridges, Mahershala Ali, Michael Shannon, Dev Patel.


Melhor Atriz Coadjuvante

Viola Davis (Um Limite Entre Nós)
Naomi Harris (Moonlight: Sob a Luz do Luar)
Nicole Kidman (Lion: Uma Jornada para Casa)
Octavia Spencer (Estrelas Além do Tempo)
Michelle Williams (Manchester à Beira-Mar)

Chegou a vez de Viola Davis e ninguém tira esse Oscar dela. Já passou da hora, aliás. Grita-se e esbraveja-se muito em Um Limite Entre Nós, algo que geralmente me afasta, mas o filme abaixa o tom lá pela metade, e Davis pode revelar, em todos os tons, domínio e entendimento total de seu ofício. Do que sobra, Harris está ótima, minha segunda escolha. Sobre Williams aparecer pouco no filme, acho isso uma bobagem, até porque a categoria de coadjuvantes serve para isso. Mais me interessa o quão marcante um ator consegue ser, a despeito de quanto tempo fica em cena. E a aparição de Williams nesse filme me marca. Coisa que Spencer, por exemplo, não faz.

Ordem de preferência: Viola Davis, Naomi Harris, Michelle Williams, Nicole Kidman, Octavia Spencer.


Melhor Roteiro Original

La La Land: Cantando Estações
Manchester à Beira-Mar
A Qualquer Custo
O Lagosta
Mulheres do Século 20

Difícil entender a indicação de La La Land aqui. Tem o doentinho A Lagosta, indicação inusitada e mesmo corajosa. Ainda que goste muito de A Qualquer Custo, não me parece um filme tão forte como roteiro. A aposta mais certeira é a consolação para Manchester à Beira-Mar, um dos grandes filmes do ano, lidando com muita maturidade com o tanto de dor e complexidade que existe na relação entre aqueles sujeitos. Mas o musical de Chazelle pode surpreender, engrossando a enxurrada de prêmios que vai levar. Seria injusto, mas não impossível.

Ordem de preferência: Manchester à Beira-Mar, A Qualquer Custo, La La Land: Cantando Estações, O Lagosta.


Melhor Roteiro Adaptado

Moonlight: Sob a Luz do Luar 
Lion: Uma Jornada para Casa
Um Limite Entre Nós
Estrelas Além do Tempo
A Chegada

Essa pode muito bem ser a consolação para A Chegada e seu sci-fi existencial – se não fosse o rocambole desastroso que vira o ato final do filme, seria muito bem merecido. Mas Moonlight é o grande adversário de La La Land, o que aumenta suas chances aqui, além de ser extremamente superior aos seus concorrentes. Os demais indicados cumprem tabela.

Ordem de preferência: Moonlight: Sob a Luz do Luar, Um Limite Entre Nós, A Chegada, Lion: Uma Jornada para Casa, Estrelas Além do Tempo. 


Melhor Animação

Kubo e as Cordas Mágicas
Moana: Um Mar de Aventuras 
Minha Vida de Abobrinha
A Tartaruga Vermelha
Zootopia

Zootopia é a aposta mais certeira, vem ganhando tudo por onde passa. Seria muito bonito ver uma vitória do belíssimo A Tartaruga Vermelha – apesar de fugir do classicismo básico que a Academia adora. Até mesmo Kubo e as Cordas Mágicas seria uma belo escape da sempre zona de conforto representada pela dupla Disney-Pixar.

Ordem de preferência: A Tartaruga Vermelha, Kubo e as Cordas Mágicas, Moana: Um Mar de Aventuras


Melhor Filme em Língua Estrangeira

Land of Mine
Um Homem Chamado Ove
O Apartamento
Tanna
Toni Erdmann

Vi pouquíssimos filmes aqui. Mas a disputa está entre Toni Erdmann e O Apartamento. O primeiro era o franco favorito há muito tempo, filme super reverenciado pela crítica, aclamado por uma série de premiações de fim de ano. Mas toda a discussão política em torno do veto de Trump à entrada de muçulmanos em solo norte-americano acende o caráter militante dos votantes e O Aparatamento é hoje a aposta mais certa, além de que Farhadi é conhecido da Academia, tendo já vencido essa mesma categoria anteriormente.

Ordem de preferência: Toni Erdmann, O Apartamento.


Melhor Documentário

Fogo no Mar
Eu Não Sou Seu Negro
Life, Animated
O.J.: Made in America
A 13ª Emenda

Não vi a série que foi lançada nos cinemas para se tornar apta a concorrer ao Oscar (convenhamos que seja um movimento bastante discutível esse). Mas parece que a estratégia deu certo e O. J.: Made in America segue favorito a levar a estatueta, o que seria inédito para uma série televisiva. Não reclamaria de uma vitória de Eu Não Sou Seu Negro, belíssimo ensaio histórico e íntimo, também com foco na discussão racial.

Ordem de preferência: Eu Não Sou Seu Negro, Fogo no Mar.


Todos os filmes no mesmo saco:

Elle ****½
Manchester à Beira-Mar ****
Moonlight: Sob a Luz do Luar ****
Toni Erdmann ****
Eu Não Sou Seu Negro ****
La La Land: Cantando Estações ***½  
A Qualquer Custo ***½
Jackie ***½
A Tartaruga Vermelha ***½
O Apartamento ***
Sully: O Herói do Rio Hudson ***
Loving ***
A Chegada ***
Rogue One: Uma História Star Wars ***
Kubo e as Cordas Mágicas ***
Um Limite Entre Nós ***
Fogo no Mar ***
Ave, Cesar! ***
Passageiros **½
Estrelas Além do Tempo **½
O Lagosta **½
Até o Último Homem **½
Moana: Um Mar de Aventuras **½
Esquadrão Suicida **½
Florence: Quem é Essa Mulher? **½
Mogli **½
Capitão Fantástico **½
Animais Noturnos **
Lion: Uma Jornada para Casa **

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Cédula de melhores de 2016



Início do ano é sinônimo de votação dos melhores do ano passado em diversas categorias. É chegada a hora do Alfred (prêmio da Ligados Blogues Cinematográficos) e do Blog de Ouro (conferido pela Sociedade Brasileira de Blogueiros Cinéfilos), grupos os quais integro. Lembro que já saiu resultado dos escolhidos pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema – Abraccine. Minhas escolhas, hoje, são: 


Melhor Filme:

Elle
Boi Neon
As Montanhas se Separam
Aquarius
Carol
Certo Agora, Errado Antes
A Academia das Musas
A Assassina
Ela Volta na Quinta
A Bruxa


Melhor Diretor:

Hou Hsiao-hsien (A Assassina)
Paul Verhoeven (Elle)
Gabriel Mascaro (Boi Neon)
Jia Zhang-ke (As Montanha se Separam)
Kléber Mendonça Filho (Aquarius)

Por um fio: Todd Haynes (Carol) e José Luís Guerín (A Academia das Musas)


Melhor Ator:

Alfredo Castro (De Longe te Observo)
Juliano Cazarré (Boi Neon)
Leonardo Sbaraglia (O Silêncio do Céu)
Fernando Alves Pinto (Para Minha Amada Morta)
Alan Sabbagh (O Décimo Homem)

Por um fio: Kwak Do-won (O Lamento)


Melhor Atriz:

Isabelle Huppert (Elle)
Sônia Braga (Aquarius)
Dolores Fonzi (Paulina)
Isabelle Huppert (O que Está por Vir)
Cate Blanchett (Carol)

Por um fio: Amy Adams (A Chegada) e Rooney Mara (Carol)


Melhor Ator Coadjuvante:

Samuel L. Jackson (Os Oito Odiados)
John Goodman (Rua Cloverfield 10)
Walton Goggins (Os Oito Odiados)
Oscar Martínez (Paulina)
Teruyuki Kagawa (Creepy)

Por um fio: Gael García Bernal (Neruda)


Melhor Atriz Coadjuvante:

Julieta Zylberberg (O Décimo Homem)
Jennifer Jason Leigh (Os Oito Odiados)
Kate Winslet (Steve Jobs)
Maeve Jinkings (Boi Neon)
Zhao Tao (As Montanhas se Separam)

Por um fio: Carla Ribas (Campo Grande)


Melhor Elenco:

Os Oito Odiados
Sieranevada
Para Minha Amada Morta
Boi Neon
Certo Agora, Errado Antes

Por um fio: A Bruxa e Mate-me, Por Favor


Melhor Roteiro Original:

Certo Agora, Errado Antes
Aquarius
A Bruxa
As Montanhas se Separam
A Garota de Fogo

Por um fio: Coração de Cachorro


Melhor Roteiro Adaptado:

Elle
Anomalisa
Carol
O Silêncio do Céu
Brooklin

Por um fio: Paulina e O Bom Gigante Amigo


Melhor Filme Brasileiro:

Boi Neon
Aquarius
Ela Volta na Quinta
Para Minha Amada Morta
Sinfonia da Necrópole

Por um fio: Mate-me Por Favor


Melhor Documentário:

O Botão de Pérola
Coração de Cachorro
Cinema Novo
A Vizinhança do Tigre
O Futebol

Por um fio: Espaço Além – Marina Abramovic e o Brasil


Melhor Animação:

Anomalisa
Procurando Dory
Kubo e as Cordas Mágicas


Melhor Trilha Sonora:

Carol
Os Oito Odiados
A Bruxa
O Bom Gigante Amigo
Demonio de Neon

Por um fio: A Chegada


Melhor Canção:

Simple Song #3 (A Juventude)
Canção dos caixões (Sinfonia da Necrópole)
Waving Goodbye (Demônio de Neon)
Waiting for My Moment (Creed: Nascido para Lutar)
Heathens (Esquadrão Suicida)


Melhor Fotografia:

A Assassina
Café Society
O Cavalo de Turim
Os Campos Voltarão
Carol

Por um fio: Boi Neon e O Filho de Saul


Melhor Direção de Arte:

Os Oito Odiados
A Assassina
Carol
Brooklin
A Bruxa

Por um fio: Rua Cloverfield 10


Melhor Figurino:

Carol
A Assassina
Amor & Amizade
Ave, César!
O Conto dos Contos

Por um fio: A Garota Dinamarquesa


Melhor Montagem:

A Assassina
As Montanhas se Separam
Elle
Certo Agora, Errado Antes
Botão de Pérola

Por um fio: Cinema Novo e Os Oito Odiados


Melhor Maquiagem:

O Regresso
Esquadrão Suicida
O Conto dos Contos
Alice Através do Espelho
História da Minha Morte


Melhores Efeitos Visuais:

Rogue One: Uma História Star Wars
O Bom Gigante Amigo
Mogli – O Menino Lobo
Capitão América: Guerra Civil
Alice Através do Espelho

Por um fio: A Chegada


Melhor Som:

A Assassina
A Chegada
O Regresso
A Bruxa
O Cavalo de Turim

Por um fio: Exilados do Vulcão


Melhor Cena:

Go West sob a neve (As Montanhas se Separam)
Dançando na sala (Ela Volta na Quinta)
Alucinação de Caleb (A Bruxa)
Fechando janelas (Elle)
Sexo (Anomalisa)

Por um fio: Cupins (Aquarius) e Strange Fruit (O Nascimento de uma Nação)


Direção Estreante:

Andre Novais Oliveira (Ela Volta na Quinta)
Robert Eggers (A Bruxa)
Carlos Vermut (A Garota de Fogo)
Laurie Anderson (Coração de Cachorro)
Aly Muritiba (Para Minha Amada Morta)

Por um fio: Anita Rocha da Silveira (Mate-me Por Favor)



terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Melhores e piores de 2016

Difícil ano esse de 2016 para o Brasil e para o mundo. Mas dos filmes, não dá pra reclamar. O nosso circuito, mesmo com falhas e pesares, conseguiu abastecer bem as salas, assim como foi um ótimo ano para o cinema nacional. Listo aqui os melhores e piores filmes dentre os lançamentos comerciais de 2016, mais uma menção honrosa das mais especiais. Aos filmes:


1. Elle


Porque o jogo da vida é perverso e saber jogá-lo é um trunfo.

2. Boi Neon


Porque o homem é também animal sensível.

3. As Montanhas se Separam


Porque a memória que resta é o maior tesouro que guardamos.

4. Aquarius


Porque é tempo de resistir e continuar amando a si mesmo.

5. Carol


Porque amar é se encontrar no olhar do outro.

6. Certo Agora, Errado Antes

  
Porque nem tudo que é sempre será.

7. A Academia das Musas


Porque uma mulher é uma mulher.

8. A Assassina


Porque até no gesto mortal há de haver delicadeza.

9. Ela Volta na Quinta


Porque a vida é uma eterna dança.

10. A Bruxa


Porque o coração mal segue incansavelmente à espreita.


Menção honrosa: Visita ou Memórias e Confissões



Porque só podemos antever o coração do outro se a casa estiver aberta


11. Paulina

12. A Garota de Fogo

13. Anomalisa

14. Para Minha Amada Morta

15. O Abraço da Serpente

16. Sangue do Meu Sangue

17. O Lamento

18. O Botão de Pérola

19. Os Oito Odiados

20. Sinfonia da Necrópole

21. Jovens, Loucos e Mais Rebeldes

22. Mate-me Por Favor

23. Cinema Novo

24. O Cavalo de Turim

25. Cemitério do Esplendor

26. Coração de Cachorro

27. Os Campos Voltarão

28. O que Está por Vir

29. O Silêncio do Céu

30. O Tesouro


No outro lado da moeda, os piores:


1. A Bruxa de Blair

2. Ben-Hur

3. Joy: O Nome do Sucesso

4. A Garota Dinamarquesa

5. Prova de Coragem

6. O Regresso

7. Jonas

8. Memórias Secretas

9. O Signo das Tetas

10. Boneco do Mal
 

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Drama demais

Animais Noturnos (Nocturnal Animals, EUA/Reino Unido, 2016)
Dir: Tom Ford


Animais Noturnos
já começa com uma sequência de créditos que se quer impactante: uma série de imagens em câmera lenta de pessoas obesas nuas, numa espécie de performance de música e dança, tudo muito colorido, límpido, tudo muito calculadamente “fora de padrão”. O que isso tem a ver com o restante do filme? Nada. A correlação mais fácil é a de que a protagonista é a diretora de uma galeria de arte, sendo aquela apresentação algum tipo de exposição high fashion das artes visuais do momento.  

Uma chave fácil de compreensão para esse tipo de recurso barato de superexposição dramática está na presunção de seu diretor, o famoso estilista Tom Ford, agora dedicado à carreira de cineasta. Mais do que em seu filme de estreia, o cheio de perfumaria, mas ainda assim intenso Direito de Amar, aqui o diretor abusa de uma estilização que só quer parecer refinada, antes de qualquer coisa. É quando a roupagem pretende ser maior que aquilo que a envolve. Os tropeços de Ford são mais desastrosos na medida em que investe num tom altamente dramático quando as situações são muito mais simples e sem a grande pompa que o filme faz parecer que elas têm. 

Susan Morrow (Amy Adams), a dona da galeria de arte, recebe de seu ex-marido (Jake Gyllenhaal) a cópia de um livro que ele acabou de escrever. A novela, com ares de thriller policial, diz respeito a um homem (também vivido por Gyllenhaal) que viaja à noite na estrada com a mulher e a filha adolescente, quando são abordados por jovens criminosos. Os desdobramentos são desastrosos. Absorta na leitura, Susan acredita que o livro seja inspirado no turbulento relacionamento dela com o escritor e fica obcecada pela história.

O filme divide-se, antão, entre esses dois tempos narrativos. A vida e o casamento cada vez mais frio e distante de Susan contrapõem-se à força e agressividade que emanam daquelas páginas e da jornada noite adentro, destrutiva e impiedosa, que destroça a vida de uma família feliz. No entanto, Ford tem uma dificuldade em equalizar esse dois momentos, seja pelo excesso de dramaticidade ou pela importância que a trama dentro do filme ganha sem se reverter em interlocução entre as duas partes.


A narrativa policialesca que se adensa ali buscar soar mais sórdida e com cara de literatura barata, mas mesmo aí existe algo um tanto calculado e classudo que Ford não abandona e leva muito a sério, como que incapaz de sujar as mãos (me vem à memória um cineasta como François Ozon que consegue ser sofisticado em alguns casos, mas é perfeitamente capaz de emular uma atmosfera um tanto brega e cafona em filmes como Swimming Pool ou Oito Mulheres, sem desprezar as forças dessas narrativas).

É na conta do excesso de drama que podemos colocar esse tom de seriedade deslumbrada do qual o filme não consegue se desvencilhar. Para além da autoimportância que isso agrega, transformada em pretensão, os problemas do filme só aumentam. Primeiro porque tenta a todo instante correlacionar as duas narrativas, forçando muitas associações fáceis e frágeis. 

Depois porque o segredo de um ato “terrível” do passado que corrói Susan promete ser algo muito maior do que realmente é. A cena final, que prenuncia uma vingança servida com frieza, o troco dado na mesma moeda do abandono e desprezo, parece coisa de adolescente mimado de tão pueril. No fundo, Animais Noturnos é muito barulho por muito pouco.

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Desejo na carne

Sangue do Meu Sangue (Sangue del Mio Sangue, Itália/França/Suíça, 2015) 
Dir: Marco Bellocchio


Existe qualquer coisa de muito vigoroso nas narrativas que o mestre italiano Marco Bellocchio constrói, especialmente quando algo, de imediato, irrompe em seus filmes. Sangue do Meu Sangue tem a mesma força criativa, sem exasperação, mas com uma história que promete alguns abalos inesperados – inclusive temporais, mas não só isso –, mirando, inicialmente, na hipocrisia da Igreja Católica em relação aos desejos carnais e à noção de pecado.

A trama se passa lá nos idos do século XVII quando um monge comete suicídio e, por conta disso, não pode ser enterrado com as bênçãos da Igreja, a menos que sua amante, a freira Benedetta (Lidiya Liberman), confesse os pecados que cometeram para que sejam perdoados.

O filme acompanha os meandros do jogo religioso que abafa seus escândalos, observados de longe pelo irmão do monge que tenta arrancar de Benedettta a confissão, apesar dela querer arrancar outra coisa dele. Mas toda essa situação parece muito pouco para o cineasta. Ou antes, a denúncia das luxúrias na rotina religiosa pode soar, de alguma forma, já desgastado.

Daí que Bellocchio sai da zona de conforto e joga seu filme num outro tempo, numa outra história. Trata-se de uma mudança brusca não só por encontrar personagens nos dias atuais, ambientado no mesmo casarão que outrora serviu de mosteiro, palco dos acontecimentos anteriores, mas também pela diferença de tom. Há agora um clima um tanto sombrio, via personagem que se revela um velho vampiro, tendo vivido escondido na casa há anos, fora o tom jocoso de diversos outros personagens que aparecem sem aviso e mesmo sem muito propósito, incluindo aí um excêntrico músico russo e seu empresário que desejam comprar aquela propriedade. 

Por vezes fica a impressão de que essa mudança é um mero capricho, truque de roteiro para “brincar” com as possibilidades narrativas da história, um desvio de atenção. Se a quebra narrativa pode soar estranho a muita gente, é bom ver quando um cineasta sabe não insistir numa história que já deu o que tinha que dar e partir para um outro registro, para continuar a discussão. Nesse caso, ela é sobre a potência do desejo e da juventude. 

Isso porque aquilo que está no cerne do filme – ou o ponto onde ele quer chegar, por assim dizer, nunca explicitado de modo frontal – é resgatado justo nos momentos finais da película –, o êxtase que faz muita coisa fazer sentido. Ali Bellocchio acredita no desejo como força de vida (divina?) para o ser humano, para a vitalidade do corpo e da alma. Não é à toa que o vampiro ancião passa a perceber sua decadência e entende que, mesmo para ele, o tempo passa e é cruel, sendo preciso ceder lugar ao ímpeto da juventude, porque esse, sim, renova e é mesmo capaz de matar o que está antigo. Para Bellocchio, o desejo salva.