terça-feira, 28 de outubro de 2014

Mostra SP – Parte IV



Ciências Naturais (Ciencias Naturales, Argentina/França, 2014)
Dir: Matías Lucchesi



Irrequieta, aluna desatenta e distante, Lila (Paula Hertzog) só pensa em uma coisa: encontrar o pai que não conhece e nem sabe que ela existe. Mas a garota é obstinada em sua busca, acumula algumas tentativas de fuga em meio à região árida e fria da Patagônia. Quem mais tem de lidar com o destemor de Lila nem é sua mãe desligada, mas a professora (Paola Barrientos), cansada de barrar a menina, passando a ajudá-la nessa empreitada.

Interessante como o filme dá a sensação de história tantas vezes contada antes, caminho de encontro de um desconhecido, mas que acaba, no fundo, sendo um processo de  autodescoberta. Ao mesmo tempo, há um frescor narrativo e carinho pelos personagens que tornam Ciências Naturais um filme que nos faz torcer por sua protagonista, aspecto de identificação sempre muito valioso.

Lila, por mais impulsiva que seja, não abandona seus propósitos, tipo de personagem admirável pelo destemor que exibe como combustível que move sua busca (lembra a determinação cega da maioria dos protagonistas dardennianos, por exemplo). Destemor esse mais emocional do que racionalizado, diga-se.

Porque há algo de muito instintivo aqui, reforçado por um roteiro que faz as duas percorrerem a região colhendo raras e incertas informações, acreditando e segundo impulsos. A geografia dura e marcada que as cerca parece apelar para esse sentido de “sobrevivência”, de luta constante, alimentada pela insistência nessa investigação (do outro e de si), como se assim seguisse o caminho natural das coisas da vida.


Força Maior (Turist, Suécia/Dinamarca/Noruega, 2014) 
Dir: Ruben Östlund



Casal e dois filhos pequenos de férias numa estação de esqui nos Alpes franceses; família aparentemente feliz em clima inicial de diversão, apesar de pequenas desavenças e incidentes entre eles. Mas a noção de “incidente” vai ser redesenhada por esse filme sueco, curioso estudo de personagens confrontados com suas fraquezas de forma a mais curiosa possível, engraçada e trágica ao mesmo tempo. Força Maior é um filme que desestabiliza.

A famosa cena da avalanche é desde já uma dos grandes hits dessa Mostra, momento forte enquanto imagem estática. Deixa não só os personagens em cena, mas também o espectador na cadeira, angustiados pela forma como a gravidade da circunstância cresce desesperadamente. Mas é a atitude de um dos personagens diante dessa situação limite que vai chacoalhar o sentimento de unidade dessa família.

Aos poucos uma crise se instala naquele conjunto. Esposa confronta marido, ambos não sabem como lidar e expurgar seus sentimentos, muitas vezes contraditórios; filhos se tornam cada vez mais arredios e agressivos, reflexo da inteligência emocional das crianças que pressentem algo fora do lugar. Mas se existe aqui um material rico para se criar um grande drama humano, Östlund prefere o caminho da confusão de sentimentos, encontra valor num tom cômico inusitado – a plateia ri de nervoso, por vezes gargalha –, tipo de humor negro que pontua exemplarmente o ridículo e o absurdo daquilo que se desenha como conflito de homens e mulheres diante de seus medos e inseguranças, inevitavelmente.

Força Maior parte de uma poética do desconforto que desestabiliza não somente essa família, mas aqueles que os cercam – mais cenas impagáveis vêm do casal de amigos que passam a discutir a própria relação no processo de ajuda e discussão da relação do casal principal.

Östlund intercala o filme com um tom operístico, uma grandiosidade que não subestima os dramas pessoais – eles fazem parte da vida, ora –, ao mesmo tempo em que faz um comentário sarcástico sobre aquela situação, sobre a tempestade num copo d’água que surge ali sem que os personagens se deem conta disso. É o efeito avalanche.


Rhino Season (Fasle Kargadan, Irã/Iraque/Turquia, 2012) 
Dir: Bahman Ghobadi


A politização do cinema iraniano é uma constante que reflete a rigidez de uma sociedade peculiar em termos de administração dos costumes, tradições, valores, desmandos e imposições que ditam a vida de um povo. Mas seja onde for, o cinema político é sempre muito mais interessante e valoroso quando pretende ser mais que uma bandeira, terreno do qual esse Rhino Season tem muita dificuldade de sair.

A veia politizada de Ghobadi aparece aqui na história do poeta curdo-iraniano Sahel Farzam (interpretado por Behrouz Vossoughi), vítima da Revolução Islâmica, acusado injustamente por escrever material subversivo, ficando preso por 30 anos. Depois de cumprir a pena, busca reencontrar a esposa (uma surpreendente Monica Bellucci), que pensa que o marido morreu.

Se o tom panfletário enfraquece o filme, principalmente porque Sahel é comumente retratado com pena, um coitadismo que encontra eco na melancólica poesia que ele escreve, talvez o que mais incomode no filme é um apuro estético exagerado. Fotografia de múltiplos filtros, cenas formatadas para gerar enquadramentos sisudamente elegantes. Esses são tipos de esforço que fazem o filme gritar “poesia!” a cada quadro. 

Ghobadi escorrega no tom, faz de Rhino Season um retrato sem muita vida de um personagem destituído de sua própria liberdade, mas ainda assim lutando para se refazer. O máximo que o filme consegue é lamentar sua existência, como se jogasse a toalha desde o início.

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