domingo, 13 de agosto de 2017

Cine Ceará – Parte IV


Pedro Sob a Cama (Idem, Brasil, 2017)
Dir: Paulo Pons


Numa cena rápida no início do filme, o protagonista Mariano (Fernando Alves Pinto) está buscando emprego como executor de serviços gerais e o empregador lhe pergunta: “você é bom em consertar coisas?”. Esta é, em escala maior, a grande provação de Mariano: tentar desfazer os equívocos e desastres que o destino lhe pôs no caminho, ou pelo menos recolar as coisas sobre os trilhos. Há oito anos um desentendimento numa festa acabou vitimando a esposa dele, grávida. Agora ele tenta reatar os laços com a família que havia ficado para trás.

A criança que a mulher carregava na barriga é Pedro, esse do título que se refugia sob a cama. Ele sobreviveu, mas nasceu com a sequela da mudez. O pai nunca o conheceu porque depois da tragédia Mariano desapareceu da vida de todos, inclusive do filho que a esposa tinha de outro relacionamento anterior, o agora adolescente Mani (Konstantinos Sarris). Quando Pedro descobre sobre o retorno do pai, que nunca viu, desvenda a casa para onde ele se muda e sorrateiramente passa a “invadi-la” e se refugia, silenciosamente, debaixo da cama do homem sem que ele perceba.

É claro que o retorno de Mariano reabre cicatrizes do passado e revira de ponta cabeça o emocional de todos. A tentativa de reaproximação de Mariano esbarra na agressividade de Mani, nessa fase difícil de mudanças que é a adolescência, e na mudez de Pedro, que faz o tipo do garoto esperto e introspectivo, daqueles observadores, atento ao que se passa ao redor sem chamar muita atenção para si – ele costuma se comunicar com os outros através de um celular preso ao pescoço onde digita mensagens. Parte do filme nos chega a partir do seu olhar um tanto quanto neutro diante da situação.

O diretor Paulo Pons esforça-se para manter uma pegada intimista e aquela doçura que tem o cuidado de não esbarrar no drama rasgado. Porém, o filme escorrega quando precisa amarrar as pontas do roteiro que soam inverossímeis em tantos momentos, capazes de tirar o espectador desse clima que o filme vai construindo.

Outros personagens e situações soam caricatas, como o comportamento da cunhada de Mariano no início do filme, ou a atitude da avó (vivida por Betty Faria) que tenta impedir o contato de Mariano com os netos – o que rende uma cena deplorável com os “capangas” da avó surgindo do nada numa praça e “prendendo” Mariano antes dele conseguir se aproximar do filho pequeno. E há ainda o grande mistério de como Mariano nunca percebeu uma criança dormindo debaixo de sua cama em tantas noites.

Tais deslizes de roteiro, entretanto, poderiam ser relevados se não fossem constantes. E se não se somasse a isso a necessidade de uma direção mais segura – câmera na mão mal usada é o que mais incomoda –, ainda que o tom do filme mantenha-se acertadamente no campo da melancolia. É como se o tempo todo houvesse um esforço para fazer o filme engatar e encontrar a firmeza da condução, via intimismo, mas somente poucas vezes ele alcança esse lugar com propriedade – a cena da conversa entre Mariano e Mani na porta de casa, por exemplo, é bem boa nesse sentido. 

Aliás, os atores que interpretam esses dois personagens são os que se saem melhor em cena. Fernando Alves Pinto segura em si grande parte da dor enraizada e da dificuldade de expurgar as culpas que esse homem carrega, fazendo aqui um bonito paralelo com o personagem que ele mesmo interpretou em Para Minha Amada Morta, de Aly Muritiba. Enquanto isso, o jovem Konstantinos faz de Mani um garoto sempre prestes a explodir, o que sacode o filme, inclusive por ele partir para cima de um comumente pacato Mariano, injetando gás em certos momentos que poderiam ser mais numerosos. Falta esse fôlego maior a Pedro Sob a Cama e uma mão mais firme de direção.

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Cine Ceará – Parte III


Santa e Andrés (Santa y Andrés, Cuba/França/Colômbia, 2016)
Dir: Carlos Lechuga


Santa e Andrés atravessa certo momento histórico de Cuba, ali no início dos anos 1980, para contar uma história de amizade. Ou vice-versa. A relação de amizade que surge entre os dois personagens, postos em lados ideologicamente antagônicos da questão política, é o que move a trama desse filme que carrega sua dose de polêmica, muito por ter sido impedido de se lançar comercialmente no país uma vez que faz dura crítica ao regime comunista ainda vigente.

Depois de tanto tempo, Cuba ainda carrega a chaga de ser esse país dividido que causa sentimentos opostos entre aqueles que o defendem ou não, algo que atravessa irremediavelmente posições morais e políticas – e o cinema cubano não deixa de retratar isso constantemente, como pudemos ver no outro corrente cubano apresentado no Cine Ceará. No momento histórico em que corre o filme, o regime comunista comandado por Fidel Castro segue bem estabelecido no país e já havia posto em prática uma política camuflada de perseguição contra homossexuais. Também havia um controle sobre escritores, artistas ou qualquer intelectual que pensasse criticamente os caminhos políticos do país.

E o protagonista do longa carrega essas duas alcunhas – ou podemos dizer, pesos. Escritor homossexual, Andrés (Eduardo Martinez) vive recluso no interior do país vigiado e controlado pelas forças policiais do regime. Não pode sair dali e muito menos continuar a escrever seus livros de teor “subversivo”, pois foi na tentativa de escrever um assim no passado que ele foi preso e condenado a viver como numa prisão em regime aberto, sempre sob custódia. Com a realização de um Fórum para a Paz ali perto de onde ele vive, o regime contrata a assistente social Santa (Lola Amores) para vigiá-lo mais de perto e impedir qualquer tipo de comunicação dele com estrangeiros ou alguma forma de manifestação de sua parte.

O filme trabalha, de imediato, a dicotomia entre os opositores e defensores do regime, muito embora, mais adiante, vai revelar, através de Santa, uma personagem com mais nuances que poderá também questionar o tratamento que é dado a Andrés. Ela, na verdade, é uma novata na função, não está ali fazendo aquele serviço por questões ideológicas e pessoais, mas sim executando um trabalho rotineiro, cumprindo uma ordem. E é na aproximação entre os dois, não necessariamente romantizada pelo filme, que os dois revelam mais de si e de seus dilemas.

É certo que em alguns momentos o filme apela para a caricatura, especialmente quando chega mais perto do final e os superiores de Santa começam a pressioná-la para vigiar Andrés com mais dureza, inclusive tentando arrancar segredos dele por intermédio dela. Falta um tanto de ritmo a partir da segunda metade da narrativa também porque o filme fica dando voltas ao redor de disputas e pequenos conflitos entre eles ou a partir da vida e rotina de cada um – como, por exemplo, a relação amorosa/sexual e mesmo agressiva que Andrés leva com um estranho rapaz que vive no povoado mais próximo. Já a dimensão dramática que Santa ganha, a partir da descoberta de assuntos dolorosos de seu passado, é mais bem resolvida na trama. O desfecho da história, no entanto, também carrega certas fragilidades ao desenhar o destino dos personagens. 

O diretor Carlos Lechuga não se furta, portanto, de apontar tais pontos controversos do sistema político cubano e das decisões e posturas que foram defendidas ali naquele momento. O filme chegou a ser censurado nos cinemas do país porque tais questões ainda não foram de todo passadas a limpo – apesar de Fidel já ter vindo publicamente para confessar que, de fato, o regime perseguiu homossexuais no passado. Mas as questões ideológicas vão continuar cercando a ilha cubana de posições antagônicas e grande parte dos discursos que forem traçado sobre o cotidiano e a História do país. Lechuga é um jovem cineasta (esse é seu segundo longa) e carrega consigo uma visão crítica dos que olham para trás sem receio de enfrentar as cicatrizes que marca(ra)m a vida dos que ali habitam.

terça-feira, 8 de agosto de 2017

Cine Ceará – Parte II



Ninguém Está Olhando (Nadie nos Mira, Argentina/EUA/Espanha/ Brasil/Colômbia, 2017)
Dir: Julia Solomonoff


Julia Solomonoff já trouxe para o Cine Ceará seu trabalho anterior, El Último Verano de la Boyita, filme vencedor da edição de 2010. Agora ela retorna com Ninguém Está Olhando e perfaz uma bela mudança de ares. Abandona o cenário campestre do interior da Argentina e agora ruma para uma paisagem cosmopolita fora do país de origem, aportando na terra de oportunidades que é Nova York.

Ela abandona também um lugar comum de certo cinema latino que investiga, via naturalismo, mais uma história de coming-of-age para ser mais original no novo filme: acompanha as desventuras de um jovem ator argentino que tenta carreira nos Estados Unidos. Nico (Guillermo Pfening) fazia uma novela de sucesso em Buenos Aires, mas por motivos pessoais, que envolvem um relacionamento mal resolvido com seu produtor, decidiu tentar a sorte longe dali.

Sem muito dinheiro e pagando aluguel em apartamento compartilhado com outras pessoas, sua primeira fonte de renda é trabalhando como baby sitter, inicialmente dos filhos de amigas que tem na cidade americana, além de bicos como garçom e afins. É a vida quase cotidiana de um imigrante latino, ainda em volta com burocracias legais e visto de permanência a expirar.

Importante saber também que a própria diretora mora atualmente em Nova York, e o filme não deixa de refletir os desafios que ela mesma enfrentou, passando pelas observações e convivência com outros latinos, artistas ou não, a partir de uma comunidade que se integra ali.

Ninguém Está Olhando busca desnudar certo mercado e ambiente da indústria audiovisual, que no país americano ganha outros níveis de concorrência, agressividade e exigência – Nico, por exemplo, loiro de olhos claros, enquadra-se mais num biótipo europeu do que latino, algo que a indústria já estereotipou há algum tempo. Mas no fundo, o filme é também uma história de pertencimento uma vez que Nico parece o tempo todo desconfortável com as pequenas batalhas que empreende em busca de realização profissional, sempre à espera de uma oportunidade que alavanque sua carreira, mas que demoram a vingar. Viver ali parece um calvário, um lugar que se lhe mostra pouco acolhedor, e o filme é marcado por um tom melancólico que passa pela expressão cansada de Guillermo Pfening sem apelar para exageros dramáticos.

Em certa medida, o filme gira muito ao redor dos mesmos dilemas e dificuldades de sempre enfrentadas por ele, o que torna a narrativa um tanto redundante e que patina pelos mesmos conflitos. No geral, a direção de Solomonoff exprime competência e dita ritmo ao filme, muito também pela gama de outros personagens que circundam a vida de Nico. A visita inesperada de um amigo argentino, também ator, com quem Nico trabalhava na televisão portenha, gera bons momentos que potencializam o desconforto do protagonista, tendo de fingir estar e viver bem para não ter de demonstrar fracasso.

Em contraponto a esse tom derrotista que paira sobre a rotina de Nico, o filme tem a delicadeza de pontuar os enlaces afetivos – como as conversas via skype com a mãe, vivida pela sempre ótima Mirella Pascual – e também amorosos. Mesmo se relacionando com outros homens em Nova York e depois de terminar um relacionamento promissor, Nico não consegue esquecer o affair que deixou na Argentina e que continua a assombrá-lo e persegui-lo. 

Ninguém está Olhando possui a qualidade dos bons dramas sobre gente quebrada: o traço da melancolia, sem passar a mão na cabeça dos seus personagens e ser condescendente para satisfazer os ditames do final feliz, mas também sem pesar a mão sobre eles, reservando-lhes carinho e dignidade.

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Cine Ceará – Parte I



Uma Mulher Fantástica (Una Mujer Fantástica, Chile/Alemanha/ Espanha/EUA, 2017)
Dir: Sebastián Lelio


O caminho de aceitação de uma pessoa transgênero perpassa primeiro por um autorreconhecimento enquanto tal e depois pela necessidade de assim ser visto/a pela sociedade. Pior é quando esse imperativo da aceitação externa chega de modo abrupto. Esse é o maior drama da protagonista de Uma Mulher Fantástica, filme do chileno Sebastián Lelio, que abriu a competição do Cine Ceará.

Marina tem um relacionamento com um homem mais velho. Um mal súbito e um acidente caseiro o leva a óbito e, de repente, ela precisa se afirmar diante da família e amigos dele. Ao mesmo tempo, tem de provar que não foi culpada pela morte do homem amado, uma vez que o relacionamento dos dois era visto com desconfiança e eles estavam sozinhos em casa.

O filme parece magnetizado pela figura dessa mulher em processo de luto e também de provação diante de uma sociedade tão hostil para um transexual. Seu comportamento inicial é de interiorizar as dores, suspeitas e receios que sua simples presença causa nas pessoas, ainda que sempre resista a todo tipo de negação que lhe é demonstrada. É no campo da batalha íntima que o filme trabalha, mesmo quando a personagem se contrapõe mais raivosamente contra seus inimigos. Ela só quer poder ir ao velório e enterro do homem que amava e seguir sem ter vergonha do que viveu, a despeito das opiniões duvidosas.

No filme anterior de Lelio, o ótimo Glória, uma mulher também buscava se firmar no mundo. Ela era mais velha, sempre esteve dedicada a seu trabalho, mas passava a ensaiar uma aproximação amorosa, até perceber o quanto a busca por um companheiro é difícil nessa idade. Em Uma Mulher Fantástica, Marina também lida com o lado emocional, mas soma-se aí o peso de ser vista como uma aberração ou não merecedora de respeito dos demais. São, portanto, filmes que colocam personagens femininas em situação de provação.

A atriz Daniela Vega é de fato uma mulher trans e segura muito bem o filme que não deixa de questionar um tipo de estereótipo muito colado a essas pessoas, geralmente associado ao sexo, à marginalidade e à prostituição. Mariana, por sua vez, trabalha como garçonete, estuda canto lírico e apresenta shows em bares e restaurantes à noite. Mas não deixa de ouvir da ex-mulher de seu companheiro esta pergunta: “ele te pagava?”, justo porque esse imaginário está muito arraigado na sociedade e ainda lhe é negada a possibilidade de viver amor sincero com outra pessoa qualquer.

Há um esforço para se traduzir, em alguns momentos, certo sentimento de inadequação e deslocamento da personagem, tanto diante da situação inusitada que vive e também diante da afirmação da própria identidade. Uma dessas imagens é bem forte: ela é atacada pelo filho do companheiro falecido – ele já tinha filhos com outra mulher – e por alguns amigos, posta dentro de um carro onde sofre uma série de agressões. Ali eles envolvem desajeitadamente a cabeça dela em fita adesiva, o que causa uma deformação na sua expressão facial. É muito significativo esse momento porque a “distorção” corporal está, pejorativamente, muito associada ao corpo de uma pessoa trans. Ao se olhar no espelho dessa maneira depois do susto, Marina é contraposta com uma imagem aberrante, uma que querem lhe impor. E é esse tipo de estranhamento sobre si mesma que ela sempre terá de enfrentar.

No entanto, o filme perde um pouco a força quando insiste nessas metáforas que o tomam de assalto e querem refletir a insegurança dela com o corpo e a condição trans. Se sai melhor quando investe nos devaneios dela. Num desses momentos, ela se vê liderando uma equipe de dançarinos que performatizam uma coreografia estilizada e profissional numa boate, e um corte brusco nos leva à realidade da protagonista que volta para casa embaixo de chuva. Isso porque Uma Mulher Fantástica abre espaço para as fantasias da personagem nesse momento de calvário e foge um pouco do aspecto mais realista que domina as produções do diretor – daí também uma segunda leitura para o título do filme – como quando, em muitas situações, ela vê a figura do companheiro morto. 

O filme, por pouco, não cai no discurso piedoso do coitadismo em relação a todo preconceito que a protagonista sofre, mas sabe confortá-la sem abrir mãe da crueza de um mundo que lhe é tão opositor. Nesse mesmo caminho, o longa põe em pauta um tema tão atual e necessário como a transgeneridade sem soar meramente panfletário, e é nesse tratamento tão balizado que reside a maior força do filme.

domingo, 6 de agosto de 2017

27º Cine Ceará – Festival Ibero-Americano de Cinema


Terceiro ano consecutivo que Fortaleza me acolhe em seu mais importante festival de cinema: o Cine Ceará. O evento celebra o rico cinema de recorte ibero-americano e chega agora em sua 27ª edição. A abertura acontece no charmosíssimo Cineteatro São Luiz com a exibição de Uma Mulher Fantástica, do chileno Sebastián Lelio.

E o Chile é justamente o país homenageado da vez, que já recebeu nos últimos dias uma mostra com filmes de destaque, entre recentes e clássicos. E há ainda uma justíssima homenagem ao grande diretor de fotografia e homem de cinema que é Walter Carvalho.

Como de praxe, faço cobertura para o Jornal A Tarde, mas tentarei escrever mais detidamente sobre os filmes aqui. 

Dessa vez participo também como membro do júri Abraccine, promovido pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema, presente em tantos festivais, que elege os melhores longas e curtas em competição. Portanto, que venham os filme.

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Ser menos

O Filme da Minha Vida (Idem, Brasil, 2017) 
Dir: Selton Mello


Sem dirigir um filme para cinema há seis anos, quando fez o ótimo O Palhaço – sucesso de crítica e público, nosso representante ao Oscar –, Selton Mello retorna agora à função com O Filme da Minha Vida. Sua estreia como diretor tinha sido com o também competente Feliz Natal. É muito curioso perceber que seus dois primeiros longas tinham pontos de referência muito claros: o primeiro emulava declaradamente o cinema de John Cassavetes, com uma mistura inusitada do impressionismo de uma Lucrécia Martel; já o segundo tinha um quê de Wes Anderson, com seu visual kitsch-estilizado e quadros muito bem compostos visualmente. Agora, o diretor tenta encontrar um caminho mais seu, um rumo próprio, ainda que altamente estilizado e muito peculiar a esse projeto, justamente no filme que se revela o menos inspirado dos três.

Talvez a explicação para tal “desencontro” esteja mesmo na origem do projeto: adaptado do livro do escritor chileno Antonio Skármeta, intitulada Um Pai de Cinema, O Filme da Minha Vida não esconde o quanto modesto essa história quer ser, a não ser pelo aspecto visual a gritar e chamar atenção para si.

O livro de Skármeta já era singelo per si, uma história curta, pequena, mas não menos cheia de meandros, questões afetivas e familiares. E não há nada mal em ser modesto e prezar pelos contos mínimos; o problema maior é que o próprio filme não parece aceitar essa sua condição. A exuberância técnica, principalmente da fotografia assinada pelo grande Walter Carvalho, não acompanha o tamanho do filme, que poderia encontrar melhor dimensão para desenvolver seus conflitos, até porque tudo que compõe essa narrativa tem o seu valor destacado: o texto é preciso, os atores estão todos ótimos em cena, há graça e humor, afeto e paixão envolvidos.

Mello encontra na história de Tony Terranova (Johnny Massaro) uma forma de idealizar uma trajetória que não necessariamente possui algo de especial, mas simplesmente reflete a vida de um jovem se abrindo para a fase adulta. Ele acabou de retornar à sua cidade interiorana de origem depois de completar os estudos superiores fora. Culto e de temperamento introspectivo, começa a dar aulas no colégio infantil. Mas vive tomado pelo remorso de ter visto seu pai (Vincent Cassell), um francês aventureiro, abandonar a cidade e a família para voltar a sua França natal no exato dia em que Tony retornou ao lar.


Inconformado e à procura de rastros do paradeiro do pai, Tony segue sonhando e amadurecendo, e o filme acompanha uma série de outras relações que lhe surgem no caminho: a paixonite que começa a nutrir pela bela Luna (Bruna Linzmeyer), o comportamento cada vez mais soturno da mãe, os contratempos com seus imberbes alunos, passando pelos desejos carnais (dele e dos alunos), além da aproximação com um velho amigo do pai, Paco (vivido pelo próprio Selton Mello). Em certa medida todos esses pequenos encontros funcionam, narrativamente, como despiste que circula ao redor do grande conflito em torno da figura paterna e também o mistério que paira sobre o porquê dele ter ido embora tão repentinamente. E a mesma singeleza que permeia a história é também a forma como o filme trata a resolução de tal caso, já no meio da projeção, e pouco constrói depois disso, a não ser pela pequena resolução dos micro-conflitos em relação aos demais personagens.

O longa parece muito mais obcecado e interessado em provocar um impacto visual memorável, a busca pela beleza constante a cada plano. O capricho pode acabar gerando sacrifícios. Corre-se o risco de soar pretensioso, como se quisesse provar competência técnica a todo custo, no limite da afetação visual, ainda que a “intenção de querer ser bonito” não seja de todo um mal a se renegar. Ou, o que é ainda mais grave, funcionar como despiste impressionável para esconder as vias de uma trama que nem sempre emplaca – e mesmo que empaca, especialmente depois da resolução envolvendo o destino do pai.

No meio disso tudo, no entanto, há a competência cênica de Selton Mello que ainda consegue manter a balança em equilíbrio e ditar certo ritmo para que o filme não se torne enfadonho. Há algo de maturidade aí, de qualquer forma, que faz jus à trajetória que ele vem apresentando até aqui. Se espremer bem, sai bem pouco da trama de O Filme da Minha Vida e é uma pena que sempre queiram fazer mais daquilo que se propõe a ser menos.

sábado, 29 de julho de 2017

O tempo da música

De Canção em Canção (Song to Song, EUA, 2017)
Dir: Terrence Malick 


Nos últimos anos, o cinema de Terrence Malick tem enveredado por um caminho que muitos enxergam entre a abstração e a busca filosófico-existencialista que descamba no nada. A despeito da recepção negativa desses filmes, vistos como pretensiosos demais, o diretor parece pouco se importar com as críticas e recusas a sua nova proposta narrativa e continua investigando os caminhos e pensamentos incertos da alma tumultuada de seus personagens errantes.

Se os filmes dessa fase – que começa com o portentoso Árvore da Vida – parecem pretensiosos demais, talvez uma maneira de se aproximar deles seja através de um pensamento que vai em direção oposta ao da pretensão: apesar de apontar para questões amplas e metafísicas, tais obras não são mais do que investigações pontuais sobre os (des)caminhos de seus personagens. Não querem ser mais do que isso, do que viagens subjetivas ao centro das inquietações de cada um. E, nesse sentido, acredito que Árvore da Vida deva ser posto já em outro patamar, como bola fora da curva, porque se trata de um filme realmente ambicioso, mas que, a meu ver, banca muito bem sua pretensão, estética e tematicamente, conseguindo a proeza de ser redondo, coeso, apesar de parecer hermético (escrevi mais sobre ele aqui), além de fundador de um novo caminho narrativo formatado e explorado por Malick desde então.

Daí que de Amor Pleno, passando por Cavaleiro de Copas até chegar nesse aqui, Malick tenha se encantado pelas possibilidades da investigação das agruras humanas a partir de uma jornada interna de autoquestionamentos. O segundo talvez seja o mais conciso em termos narrativos porque se concentra em um único personagem. Já De Canção em Canção chega perto do filme coral, sem protagonista definido, e intercala seus personagens que se cruzam em meio à rica cena musical em Austin, no Texas, onde acontece um importante festival de música. BV (Ryan Gosling) se envolve com a baixista Faye (Rooney Mara) enquanto seu produtor Cook (Michael Fassbender) se encanta pela garçonete interpretada por Natalie Portman.

De Canção em Canção parece alcançar a saturação desse dispositivo em que a fragmentação narrativa e o entrecorte de um intervalo conturbado da vida dos personagens faz o filme vibrar com interesse pelo modo com que eles caminham por esse terreno arenoso que são suas próprias histórias de vida atuais. Com isso, o filme não precisa se importar muito com o desencadeamento lógico das ações e com as relações muito demarcadas de causa e consequência.


A reflexão existencial, a fragmentação narrativa, cortes bruscos, o homem em embate com o tempo e com a natureza, tudo isso já estava ali no cinema de Malick desde os filmes anteriores, mas tinha roupagem mais definida porque situavam-se em paisagens mais palpáveis. Agora ele abandona contextos maiores (a guerra, a América rural, a América nativa) para se concentrar em conflitos interiores, mas não menos amplos, de gente deslocada no mundo contemporâneo (com curiosa preferência por pessoas de classe social alta, que trafegam perdidas em meio a festas em casarões vistosos, ambientes sofisticados, bebendo e comendo em lugares caros em meio a convidados famosos).

O que, no entanto, pode depor contra a ideia de que o filme não precisa ser encarado como estudo de todo pretensioso é a insistência em recheá-lo com imagens que se querem exuberantes, a traduzir esse estado quase cósmico de autorreflexão, via textura digital ultra cristalina – pejorativamente associada a mensagens de power point edificantes. Até disso De Canção em Canção já parece ter se cansado, ou invista mais na paisagem urbana por onde os personagens trafegam, deixando de lado o aparente tom universalista que cenários naturais possam transmitir, já saturados nos filmes anteriores do cineasta. Ainda assim, as firulas continuam lá, são um caminho sem volta nessa proposta narrativa a que o diretor se apegou. Porém, mais uma vez, é possível entendê-las não como tentativa de ousadia e pirotecnia visual, mas antes como formulação da grandeza exterior que se contrapõe aos anseios de cada um dos indivíduos errantes e suas preocupações pessoais, encolhidos em suas vidas monótonas. 

Os protagonistas de De Canção em Canção experimentam certo estado de suspensão diante das agruras da vida, mas com seus corpos em constante movimento, irrequietos, em busca de algo, de respostas, afetos e abrandamento das dores. A montagem fragmentada ajuda muito a construir essa percepção, ao mesmo tempo em que torna tais angústias tão fugidias e mesmo difíceis de decifrar. Não há nada de muito novo nisso tudo em comparação ao que Malick já nos apresentou até então, mas há de se tentar dimensionar, sem grandes ambições, o interesse por essa formulação etérea que é alguém em busca de si mesmo.

sexta-feira, 30 de junho de 2017

CineOP – Parte III


No Intenso Agora (Idem, Brasil, 2017)
Dir: João Moreira Salles


De longe, No Intenso Agora, filme mais novo do cineasta João Moreira Salles, que encerrou esta 12ª Mostra de Cinema de Ouro Preto, trata-se de obra das mais politizadas a investigar o caráter e os meandros dos movimentos revolucionários em fins da década de 1960 em lugares distintos do mundo. Mas no fundo é também uma grande investigação sobre a natureza e estatuto da própria imagem documental. Com este filme, trabalha somente em cima de imagens de arquivo do período, ressignificando-as e buscando encontrar nelas modos de falar do hoje como sempre se dá nesses casos. O filme possui, portanto, uma dupla função: é ao mesmo tempo resgate histórico e também estudo metalingüístico.

Moreira Salles já havia feito algo parecido e talvez até mais potente em termos de reflexão sobre o documentário na sua obra-prima Santiago, lançada há dez anos. As memórias pessoais e ponderações íntimas também estão contidas em seu novo filme, tais como abundavam naquele, mas agora ele amplia seu escopo de alcance por tratar de questões que permeiam uma memória coletiva através de fatos marcante da história recente da humanidade, via condução memoralística.

Nessa investigação historico-pessoal sobre imagens feitas na segunda metade dos anos 1960 quando o mundo estava convulsionado por manifestações revolucionárias, o cineasta parte de imagens que sua própria mãe registrou em viagem à China quando Mao Tsé-Tung já havia implantado o regime comunista no país asiático. Dali passa para cenas das greves gerais do maio de 68 na França, pelas manifestações da Primavera de Praga, na então Tchecoslováquia, e também no Brasil quando se enfrentavam os desmandos e arbitrariedades da Ditadura Militar.

Através de depoimento em off, o cineasta cria, ele mesmo, uma série de reflexões e ideias sobre essas imagens e sobre o ideal revolucionário, num verdadeiro trabalho de arqueologia da imagens, misturado com percepções muito pessoais do que aqueles acontecimentos significam para ele e de como eles o entendem em seus respectivos contextos.

Longe de um tom professoral, como pode soar de início, o diretor é sempre mais sagaz quando investe na análise mais subjetiva das coisas. Em dois momentos isso fica mais flagrante e rico: a observação feita sobre o movimento do rapaz que joga uma pedra contra os policiais; e aquele em que arrisca comentários sociais sobre a maneira como se filma um bebê e sua babá. 

É bem plausível ler nas entrelinhas que um filme sobre as revoluções populares ocorridas há cerca de 50 anos atrás é também um modo de comentar, indiretamente, o Brasil de hoje, a onda de manifestações e agitações que tomaram conta do Brasil com mais intensidade desde 2013 até então. Esse tipo de camada e complexidade que o filme ganha com tal interpretação, que não está diretamente posta no filme, só torna No Intenso Agora um rico objeto de análise, tanto por aquilo que nos faz ver dessas imagens tão antigas, quanto das possibilidades de leitura que se abrem sobre elas, mas também sobre como elas são manipuladas e pensadas.

segunda-feira, 26 de junho de 2017

CineOP – Parte II



Rosemberg – Cinema, Colagem e Afetos (Idem, Brasil, 2017)
Dir: Cavi Borges e Christian Caselli


Há algo de desafiador na tarefa de realizar um documentário sobre um dos grandes nomes do cinema de invenção brasileiro contando com depoimentos do próprio documentado. Isso porque o cinema de Luiz Rosemberg Filho segue a mesma proposição de seus colegas de geração que desafiaram normas e códigos cinematográficos para fazer algo único, transgressor, estando ele à margem mesmo daqueles que faziam cinema como ele, mas tinham outra posição no campo do cinema brasileiro, como é o caso de Rogério Sganzerla.

Não parece haver lugar, portanto, para um documentário tradicional de entrevistas e registros puramente ilustrativos sobre algo que pulsa em outra modulação, e que pertence a um fluxo de pensamento muito pessoal do cineasta. Com isso, a dupla de diretores Cavi Borges e Christian Caselli encontra na noção de “cinema de colagem” – defendida pelo próprio cineasta em depoimento no início do filme – um conceito aplicável e faz de Rosemberg – Cinema, Colagem e Afetos também um processo de composição de imagens que se alinham para dar forma e sustentação ao pensamento de cinema e de vida apresentada pelo cineasta.

Os diretores contam com o depoimento em off de Rosemberg, falando sobre sua obra e trajetória, mas preenche a tela com um jogo de imagens que entrecorta e edita cenas icônicas de seus filmes com diversas outras imagens e intervenções. É uma maneira inteligente de dialogar com a proposta de cinema tão peculiar do diretor, sem ter a pretensão de fazer um mero filme de depoimentos. É certo que de início algumas dessas sobreposições soam um tanto infantis, como as animações misturadas às cenas, mas logo o filme afia o prumo e passa a dar mais atenção ao processo de costura dessas imagens.

As poucas imagens que o filme capta de Rosemberg o mostram em casa, muito tranquilamente – ou quando dirige suas atrizes no filme e peça Dois Casamentos. O que mais importa aqui são o pensamento e as reflexões do diretor que vai enumerando questões e as experiências com cada um dos seus filmes – e talvez ao seguir essa cronologia o filme esteja operando em um modo mais clássico e um tanto conservador de se fazer um documentário sobre um cineasta. 

Para ele, o cinema é uma “carta de amor ao outro”, como define mais ao fim da projeção. O fluxo de imagens que Rosemberg promove em seus filmes ganha vivacidade e irreverência muito bem traduzidas pelos dois diretores e coloca em questão o lugar tão pouco destacado de Rosemberg e da importância de seus filmes – e de (re)descobri-los – no panorama atual de revisão do cinema de invenção.

sexta-feira, 23 de junho de 2017

CineOP - Parte I


Desarquivando Alice Gonzaga (Idem, Brasil, 2016)
Dir: Betse de Paula


Desarquivando Alice Gonzaga, de Betse de Paula, parece o filme ideal para abrir a programação da CineOP, já que a protagonista que dá nome ao filme diz ter “mania de arquivo”. Ela é filha de Adhemar Gonzaga, diretor e empreendedor que fundou o primeiro estúdio e produtora de cinema do Brasil, a icônica Cinédia, em 1930.

Foi ali que surgiram os primeiros grandes sucessos do cinema brasileiro, como O Ébrio (1946), de Gilda de Abreu, protagonizado pelo cantor Vicente Celestino. Foi a Cinédia também que acolheu diretores fundamentais como Humberto Mauro, que ali faria Ganga Bruta (1933); e ainda houve a passagem de Mário Peixoto e seu mítico Limite (1931) – escolhido como o melhor filme brasileiro de todos os tempos segundo votação recente da Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine).

Alice, desde criança, sempre foi encantada pelo mundo do cinema e se envolveu com o trabalho do pai na Cinédia. Ali se dedicou, em grande medida, a cuidar dos arquivos e de toda a memória do estúdio.

Desarquivando Alice Gonzaga acompanha a personagem enquanto ela apresenta o cuidadoso e rico arquivo com filmes, recortes de jornais e revistas, documentos, catalogações, enfim, todo tipo de material que faz parte da memória do estúdio e, consequentemente, do cinema brasileiro.

Existe certo amadorismo na construção narrativa do filme, na maneira mesmo como a diretora filma esse encontro. É uma sorte que a personagem seja tão espirituosa e falastrona, cheia de histórias e curiosidades para contar, também dona de opiniões seguras. O próprio ritmo do filme parece acompanhar a profusão de informação e ideias que Alice tem a oferecer, ainda que soe desarticulado muitas vezes. 

Mas o filme é um curioso retrato sobre a dificuldade da preservação da memória do cinema brasileiro, ainda mais se pensarmos que o trabalho de Alice é movido por uma paixão muito particular e de traços familiares. Está longe das instituições e do papel do próprio Estado em fazer esse trabalho, tão necessário a outros focos de produção na história do cinema nacional.

domingo, 26 de março de 2017

Figuras dilaceradas

Fragmentado (Split, EUA, 2017) 
Dir: M. Night Shyamalan


Não é de se surpreender que, mais uma vez, Shyamalan faça render o suspense a partir de uma premissa tão objetiva, explorando ao máximo poucos espaços e personagens. É quase um contrassenso dizer isso porque seu protagonista expande-se psicologicamente entre 23 personas distintas, algo que o torna tão perigoso quanto fascinante.

Fragmentado acompanha os planos inicialmente incertos desse homem desdobrado em tantos ao sequestrar três adolescentes. Há muitas pessoas vivendo no corpo de Kevin (James McAvoy), como diz a Dr. Fletcher (Betty Buckley), psiquiatra que cuida do caso do rapaz. Ele, aliás, tem consciência de seu próprio transtorno de personalidades. Em muitas conversas, ele fala em “nós”, como se estivesse incluído num grupo maior de pessoas em que cada um reconhece as particularidades do outro; e eles estão começando a entrar em conflito.

A maturidade de Shyamalan como encenador está ali, intacta, neste belo exercício de tensão que é Fragmentado. Há um domínio exato da atmosfera de suspense, tanto a partir das tentativas de fuga das garotas, quanto na onda crescente de perigo que aponta para o possível surgimento de uma 24ª personalidade em Kevin, mais bestial e violenta, e que justificaria o sequestro das jovens.

O roteiro do filme confere especial atenção para uma das meninas, Casey (Anya Taylor-Joy). Ela é o patinho feio da turma, retraída e de poucos amigos; é sequestrada por acaso por estar junto com as outras duas garotas no momento. O filme intercala flashbacks dela quando menina, indo acampar com o pai e o tio. Os desdobramentos de situações vividas na infância vão revelar muito sobre os traços de comportamento na adolescência. É um momento também que Shyamalan discute a natureza animal do ser humano, como atitude diante do mundo e também no seu instinto de sobrevivência. E tudo isso vai convergir, espertamente, para o desfecho do filme, revelando um cuidado preciso na construção do roteiro.

E por se tratar de um filme de Shyamalan, não poderia deixar de haver ali um sentido maior que ronda a história (Sinais, por exemplo, é um filme sobre a necessidade da crença; O Sexto Sentido, sobre um garoto que precisa de atenção; A Vila versa sobre os dilemas da sociedade frente ao estado de violência). Curioso que, em geral na obras do cineasta, esse sentido vem escondido e ascende no final. Porém, em Fragmentado, Shyamalan prefere ser mais explícito: está na tese da psiquiatra, didaticamente defendida pela própria personagem no primeiro terço do filme, a ideia de que as pessoas com esse tipo de transtorno dissociativo de personalidade conseguem acessar habilidades sobre-humanas escondidas na mente, uma vez que cada uma das personalidades é capaz de modificar os componentes psicológicos e mesmo fisiológicos do corpo.

Essa opção em “frontalizar” as disputas travadas no cerne do filme já estava presente no longa anterior, A Visita, em que o cineasta preferia mostrar do que esconder – escrevi melhor sobre isso aqui). Decerto que havia uma reviravolta no final, mas agora o cineasta parece menos refém dos plot twists e mais focado em envolver suas histórias e personagens em questões maiores.


Agora em oposição a A Visita, por quase toda a projeção de Fragmentado, Shyamalan vai deixando claro que nada ali estaria no reino do fabular. Porém, nos momentos finais oferece interessantes indícios sobre as possibilidades sobrenaturais que pode haver na capacidade mental, agora sim fazendo links possíveis com o terreno do fantástico.

A partir daqui a crítica contém SPOILERS. Continue a leitura por sua conta e risco.

Esses momentos finais do longa são fundamentais para se pensar a maneira como as coisas estão interligadas. O gancho que ele estabelece na exata cena final com o universo de Corpo Fechado é mais do que uma grande curiosidade a aplacar a ânsia dos fãs por uma continuação. Ela ajuda a completar os sentidos que estão implícitos em Fragmentado.

O mais fundamental é a relação a se estabelecer entre as personalidades de Kevin, capitaneadas pela Fera, com Casey. Já estava lá em Corpo Fechado a ideia de formação da figura do herói e, em menor medida, do vilão. E além isso, de como eles podem ser similares, mas também polos opostos que justificam um a existência do outro. São as metades que se complementam. É justamente quando a Fera reconhece a “alma despedaçada” de Casey, ele se recusa a matá-la. Entendemos, então, toda a construção do passado da menina e suas tragédias subentendidas como modo de fortalecer a personagem enquanto pária, tão problemática e incomum como o próprio Kevin, e que a Fera identifica como um igual, apesar de intenções distintas.

Ele e suas múltiplas peles passam a ser chamados agora de O Horda, o que remete a um outro “sujeito esquisito” visto no filme anterior, o Sr. Vidro. São ambos vilões que surgem por força das circunstâncias biológicas e psicológicas com que vieram ao mundo e os tornaram seres atípicos. Está dada a largada para a ampliação do universo mitológico em torno de tais figuras arquetípicas e também dilaceradas.

domingo, 26 de fevereiro de 2017

Palpites Oscar 2017


Como tradição, seguimos aqui com as apostas das principais categorias para a edição do Oscar deste ano, jogo na maior parte das vezes previsível, mas ainda assim divertido. Ficamos à espera de possíveis surpresas na noite. Em negrito, em cada categoria, aqueles que eu acho que vão vencer, abaixo minha ordem de preferência entre todos. No final, listo todos os filmes com ao menos uma indicação que eu vi, em ordem de preferência.


Melhor Filme

A Chegada
Até o Último Homem
Estrelas Além do Tempo
Lion
Moonlight: Sob a Luz do Luar
Um Limite Entre Nós
A Qualquer Custo
La La Land: Cantando Estações
Manchester à Beira-Mar

De modo geral, uma seleção fraca, com dois ótimos filmes, desses marcantes (Manchester e Moonlight), com outros bons representantes (La La LandA Qualquer Custo). Os demais, para mim, são bem dispensáveis. O musical nostálgico comandado por Chazelle é o incensado da vez, Hollywood elogiando a si mesmo. No entanto, não há de se descartar uma virada de jogo de Moonlight, o que me deixaria bem feliz. Na verdade, feliz mesmo eu ficaria se reconhecessem a maturidade e as sutilezas de Manchester à Beira-Mar.

Ordem de preferência: Manchester à Beira-Mar, Moonlight: Sob a Luz do Luar, La La Land: Cantando Estações, A Qualquer Custo, A Chegada, Um Limite Entre Nós, Até o Último Homem, Estrelas Além do Tempo, Lion: Uma Jornada para Casa.


Melhor Diretor

Dennis Villeneuve (A Chegada)
Mel Gibson (Até o Último Homem)
Damien Chazelle (La La Land: Cantando Estações)
Kenneth Lonergan (Manchester à Beira-Mar)
Barry Jenkins (Moonlight: Sob a Luz do Luar)

Trocaria fácil a competência cambaleante (e sem fôlego no final) de Villeneuve pela segurança constante de David Mackenzie, de A Qualquer Custo. Mas não é uma má categoria a partir dos indicados a melhor filme. Mesmo à frente de um longa cheio de problemas, o trabalho de Gibson como diretor é surpreendetemente bom. Uma vitória de Chazelle parece inevitável, ele tão novinho e já com olhar clínico. Mas Jenkins pode surpreender aqui e eu adoraria ver isso porque ele não esconde certa estilização como encenador, algo que geralmente descamba para o exibicionismo, mas nunca deixa sua história e seus personagens em segundo plano, apesar do apuro estético.

Ordem de preferência: Barry Jenkins, Kenneth Lonergan, Damien Chazelle, Mel Gibson, Dennis Villeneuve. 


Melhor Ator

Casey Affleck (Manchester à Beira-Mar)
Denzel Washington (Um Limite Entre Nós)
Ryan Gosling (La La Land: Cantando Estações)
Andrew Garfield (Até o Último Homem)
Viggo Mortensen (Capitão Fantástico)

Nas últimas semanas, as apostas passaram a apontar Washington como vencedor, mesmo com Affleck ganhando tantos prêmios anteriormente – e mesmo com uma acusação grave de ter cometido assédio sexual. E por mais que eu goste e admire o trabalho de Denzel, eu gostaria muito de ver reconhecida uma grande atuação calcada na sutileza, introspecção e dor que o personagem de Affleck carrega, em contraponto a certo histrionismo que geralmente é associado a grandes interpretações. Bom ver também o destaque dado ao competente trabalho de Mortensen (também sem exageros dramáticos), apesar do filme fraco. E infelizmente Gosling tem se tornado apenas um rostinho bonito e aqui pega carona no sucesso do seu filme.

Ordem de preferência: Casey Affleck, Denzel Washington, Viggo Mortensen, Andrew Garfield, Ryan Gosling.


Melhor Atriz

Natalie Portman (Jackie)
Emma Stone (La La Land: Cantando Estações)
Meryl Streep (Florence: Quem é Essa Mulher?)
Ruth Negga (Loving)
Isabelle Huppert (Elle)

Não há nada mais potente em termos de atuação feminina do ano passado do que o trabalho corajoso de Isabelle Huppert. Há quem ainda aposte nela – e seria lindo ver isso acontecer, ainda mais depois de Verhoeven ter revelado que, quando Elle estava para ser feito nos EUA, nenhuma atriz sondada pelo estúdio aceitou fazer o papel. Mesmo assim, ainda acho que a disputa está entre Watson e Portman, que lá no início da corrida parecia pronta para receber sua segunda estatueta, que seria mais digna do que a primeira. Mas a atriz de La La Land parece formatada para ser a nova queridinha da América, ainda mais com o sucesso do seu filme. Negga é uma grande surpresa aqui, atuação contida, competente do início ao fim.

Ordem de preferência: Isabelle Huppert, Natalie Portman, Ruth Negga, Meryl Streep, Emma Stone. 


Melhor Ator Coadjuvante

Mahershala Ali (Moonlight: Sob a Luz do Luar)
Jeff Bridges (A Qualquer Custo)
Lucas Hedges (Manchester à Beira-Mar)
Dev Patel (Lion: Uma Jornada para Casa)
Michael Shannon (Animais Noturnos)

Pelo tanto de hype e tantos prêmios acumulados, esperava um pouco mais da atuação de Ali, franco favorito aqui – e talvez uma forma de consolação para Moonlight caso saia sem muitos prêmios. Mas o time de atores do filme de Jenkins funciona muitíssimo bem em conjunto. Assim como estão ótimos os demais concorrentes aqui, sendo Patel a grande surpresa porque sempre o achei um ator limitado. Porém ainda prefiro a ternura máscula de Hedges ou a aspereza de Bridges – ainda que repetindo outros personagens seus. Outro que repete o homem à beira do abismo existencial é Shannon.

Ordem de preferência: Lucas Hedges, Jeff Bridges, Mahershala Ali, Michael Shannon, Dev Patel.


Melhor Atriz Coadjuvante

Viola Davis (Um Limite Entre Nós)
Naomi Harris (Moonlight: Sob a Luz do Luar)
Nicole Kidman (Lion: Uma Jornada para Casa)
Octavia Spencer (Estrelas Além do Tempo)
Michelle Williams (Manchester à Beira-Mar)

Chegou a vez de Viola Davis e ninguém tira esse Oscar dela. Já passou da hora, aliás. Grita-se e esbraveja-se muito em Um Limite Entre Nós, algo que geralmente me afasta, mas o filme abaixa o tom lá pela metade, e Davis pode revelar, em todos os tons, domínio e entendimento total de seu ofício. Do que sobra, Harris está ótima, minha segunda escolha. Sobre Williams aparecer pouco no filme, acho isso uma bobagem, até porque a categoria de coadjuvantes serve para isso. Mais me interessa o quão marcante um ator consegue ser, a despeito de quanto tempo fica em cena. E a aparição de Williams nesse filme me marca. Coisa que Spencer, por exemplo, não faz.

Ordem de preferência: Viola Davis, Naomi Harris, Michelle Williams, Nicole Kidman, Octavia Spencer.


Melhor Roteiro Original

La La Land: Cantando Estações
Manchester à Beira-Mar
A Qualquer Custo
O Lagosta
Mulheres do Século 20

Difícil entender a indicação de La La Land aqui. Tem o doentinho A Lagosta, indicação inusitada e mesmo corajosa. Ainda que goste muito de A Qualquer Custo, não me parece um filme tão forte como roteiro. A aposta mais certeira é a consolação para Manchester à Beira-Mar, um dos grandes filmes do ano, lidando com muita maturidade com o tanto de dor e complexidade que existe na relação entre aqueles sujeitos. Mas o musical de Chazelle pode surpreender, engrossando a enxurrada de prêmios que vai levar. Seria injusto, mas não impossível.

Ordem de preferência: Manchester à Beira-Mar, A Qualquer Custo, La La Land: Cantando Estações, O Lagosta.


Melhor Roteiro Adaptado

Moonlight: Sob a Luz do Luar 
Lion: Uma Jornada para Casa
Um Limite Entre Nós
Estrelas Além do Tempo
A Chegada

Essa pode muito bem ser a consolação para A Chegada e seu sci-fi existencial – se não fosse o rocambole desastroso que vira o ato final do filme, seria muito bem merecido. Mas Moonlight é o grande adversário de La La Land, o que aumenta suas chances aqui, além de ser extremamente superior aos seus concorrentes. Os demais indicados cumprem tabela.

Ordem de preferência: Moonlight: Sob a Luz do Luar, Um Limite Entre Nós, A Chegada, Lion: Uma Jornada para Casa, Estrelas Além do Tempo. 


Melhor Animação

Kubo e as Cordas Mágicas
Moana: Um Mar de Aventuras 
Minha Vida de Abobrinha
A Tartaruga Vermelha
Zootopia

Zootopia é a aposta mais certeira, vem ganhando tudo por onde passa. Seria muito bonito ver uma vitória do belíssimo A Tartaruga Vermelha – apesar de fugir do classicismo básico que a Academia adora. Até mesmo Kubo e as Cordas Mágicas seria uma belo escape da sempre zona de conforto representada pela dupla Disney-Pixar.

Ordem de preferência: A Tartaruga Vermelha, Kubo e as Cordas Mágicas, Moana: Um Mar de Aventuras


Melhor Filme em Língua Estrangeira

Land of Mine
Um Homem Chamado Ove
O Apartamento
Tanna
Toni Erdmann

Vi pouquíssimos filmes aqui. Mas a disputa está entre Toni Erdmann e O Apartamento. O primeiro era o franco favorito há muito tempo, filme super reverenciado pela crítica, aclamado por uma série de premiações de fim de ano. Mas toda a discussão política em torno do veto de Trump à entrada de muçulmanos em solo norte-americano acende o caráter militante dos votantes e O Aparatamento é hoje a aposta mais certa, além de que Farhadi é conhecido da Academia, tendo já vencido essa mesma categoria anteriormente.

Ordem de preferência: Toni Erdmann, O Apartamento.


Melhor Documentário

Fogo no Mar
Eu Não Sou Seu Negro
Life, Animated
O.J.: Made in America
A 13ª Emenda

Não vi a série que foi lançada nos cinemas para se tornar apta a concorrer ao Oscar (convenhamos que seja um movimento bastante discutível esse). Mas parece que a estratégia deu certo e O. J.: Made in America segue favorito a levar a estatueta, o que seria inédito para uma série televisiva. Não reclamaria de uma vitória de Eu Não Sou Seu Negro, belíssimo ensaio histórico e íntimo, também com foco na discussão racial.

Ordem de preferência: Eu Não Sou Seu Negro, Fogo no Mar.


Todos os filmes no mesmo saco:

Elle ****½
Manchester à Beira-Mar ****
Moonlight: Sob a Luz do Luar ****
Toni Erdmann ****
Eu Não Sou Seu Negro ****
La La Land: Cantando Estações ***½  
A Qualquer Custo ***½
Jackie ***½
A Tartaruga Vermelha ***½
O Apartamento ***
Sully: O Herói do Rio Hudson ***
Loving ***
A Chegada ***
Rogue One: Uma História Star Wars ***
Kubo e as Cordas Mágicas ***
Um Limite Entre Nós ***
Fogo no Mar ***
Ave, Cesar! ***
Passageiros **½
Estrelas Além do Tempo **½
O Lagosta **½
Até o Último Homem **½
Moana: Um Mar de Aventuras **½
Esquadrão Suicida **½
Florence: Quem é Essa Mulher? **½
Mogli **½
Capitão Fantástico **½
Animais Noturnos **
Lion: Uma Jornada para Casa **